Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
SÔTÔ eu tenho doença

Foto e artigo enviados por:Alfredo Novais (O Doctor)

O doutor e a pasta.JPG

Era a 3ª vez que o Batalhão de Caçadores 3869, se movimentava por terras de Angola, em rotatividade de zona, e que no caso da CCS ( Companhia de Comando e Serviços ) foi Ambrizete, no litoral norte, Namboangongo, interior norte e agora estávamos á porta de Pereira D’eça, no extremo sul.Aparcamos nas proximidades, era já o fim da tarde, a azafama era enorme; e agora mesmo recordo, porque fui militar na Metrópole e agora em Angola, a forma de estar, o relacionamento, a postura entre esta família de militares, era na verdade bastante mais cordial do que na Metrópole; o que naturalmente levava a que uma boa parte dos militares eram tratados por uma alcunha, que normalmente nascia nos primeiros tempos de agrupamento.A minha, porque apareci em Ambrizete, cerca de três meses após a chegada do Batalhão, a arrastar um caixote de madeira com o fardamento e mais pertences pessoais, na mão levava uma pasta cheia de livros, a fim de dar continuidade à minha formação, alguns militares ao ver o quadro, não exitaram, ali vem o doutor.A partir daquele momento, nem lavado e perfumado o Novais Rádiotelegrafista deixaria de ser o doutor.Longe de mim, e de Ambrizete, estaria a embrulhada em que a alcunha me iria colocar; regressemos à chegada a Pereira D’eça, no meio daquele descampado, com alguma vegetação, o cair da tarde e a noite a aparecer, as viaturas posicionadas e os militares por tudo quanto era espaço, procurando o melhor abrigo na possibilidade de ser aquele o alojamento para aquela noite.Como era habitual, a chegada de uma coluna com aquelas dimensões atraía sempre a curiosidade das pessoas locais, alguém ia dando ordens, para as próximas tarefas, lá andava o nome no ar, doutor para aqui, doutor para ali, fui-me apercebendo sem saber porquê, que sempre que me deslocava era seguido por algumas pessoas de côr, que sempre que eu parava, de imediato se colocavam em fila, comecei a ficar intrigado, e eis que a determinada altura, uma delas se me dirige e diz; SÔTÔ eu tenho doença.Trinta e tal anos depois, continuo com aquela sensação de impotência absoluta, gravada na memória, perante uma situação, que foi muito difícil esclarecer junto das pessoas, pois elas tinham na sua frente um militar de pasta na mão a quem a maioria das pessoas chamavam doutor, valeram-me na circunstância os colegas, enfermeiro e maqueiro, que lá conseguiram uma ou outra solução para situações, que eles identificaram, pois efectivamente não havia nenhum médico no batalhão.

Novais (Radiotelegrafista) –

O doutor



publicado por bcac3869 às 13:18
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