Sábado, 15 de Outubro de 2011
No mar de Ambrizete

A praia estava húmida. O céu cinzento e o mar revolto apareceram de manhã zangados com os vivos e mortos. O barulho das ondas era imenso e profundo. Parecia que todo “o mundo” ralhava. Os Deuses? Seriam os Deuses?... A maresia era bafo fresco e nós passeávamos na praia tal como outros seres vivos. O Sargento Nery e eu… A nossa vista deambulava pelo mar fora e “o levante”, terrível, espumava como cavalo cansado de esforço… Comentámos… como é que há gajos que vão nadar com um mar destes????? É preciso serem muito doidos…ou terem muito cacimbo nos miolos…. de facto estávamos a admirar um nadador que até nos acenava lá longe, nas vagas. Nós também íamos correspondendo e até nos rimos disso… Lá nos sentámos na areia fina de Ambrizete e de vez enquanto íamos olhando para o “aventureiro”. Trocamos algumas impressões e levantou-se a hipótese de que o “dito cujo”, que continuava a fazer “adeus”, pudesse estar a pedir socorro. Foi terrível o momento da lucidez… Corremos para dois pescadores que estavam ali, junto ao Brinca na Areia e rapidamente saltamos, os quatro, para uma “Chata”, barco de madeira achatado por baixo. Não foi difícil entrar no mar porque este puxava… Os Deuses queriam “sacrifícios”.Levávamos só uma bóia de câmara-de-ar de pneu de camião. Não havia coletes de protecção… eu e o Nery tínhamos camisas vestidas porque estava muito “fresco”.Fizemos mais de 100 metros de vagas e íamos gesticulando para o homem que pedia socorro. Este, também correspondia, mas cada vez menos…Quando chegamos a cerca de 10 metros, o homem desaparece. Tinha sido um grande esforço dos pescadores mas o mar tinha levado a vítima deste “Altar”. Eu e o Nery entreolhámo-nos, tirei a camisa e mandei a grande bóia para cima da zona do desaparecido.Saltei atrás dela e como mal sei nadar agarrei-a com todas as forças que tive…Algo bateu nos meus pés e puxei com uma das mãos. O sacrifício ainda não estava totalmente consumado.Daquela cabeça, quase branca, saltou pela boca um jorro de água e espuma. Foi impressionante…mas estava inanimado. Começamos a árdua tarefa de tirar aquele corpo do mar, mas a ondulação era muita e o barco baloiçava que nem “ um touro farpado”.Demorou a içá-lo mas conseguimos. Enquanto os pescadores remavam para salvar a “ nossa pele”.O Nery e eu deitamos o homem de barriga para baixo no barco e começámos a empurrar as pernas dele e a puxá-las o que levava a que os jorros de água continuassem a sair. Olhei à minha volta e a nossa “Chata” tanto ía ao fundo, como vinha à superfície porque ora estávamos no fundo da onda ora no cume da mesma. A praia e o Brinca na Areia estavam irreconhecíveis. Os nossos camaradas pareciam às centenas e ambulância do exército já lá estava. O problema é que todos remávamos só com dois remos e o barco muito a muito custo e lentamente foi ganhando caminho de retorno.Suávamos no frio daquela manhã… mas o homem já estava salvo embora muito cansado. Quando chegamos à praia já não me lembro do que aconteceu mas soube que o homem era um soldado motorista de outra Companhia e que estava casado com uma Espanhola e pai de duas filhas pequeninas. Soube que esteve 3 horas a soro no hospital e um dia que voltou a Ambrizete quis e pagou-me uma “Cuca”. Nunca mais soube dele…


Sebastião Pires Crónicas de Ambrizete 33 anos depois…



publicado por bcac3869 às 22:21
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