Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
VIA LACTEA UMA SETA NO CORAÇAO DO CANACASSALA

Naquela tarde, de entre os diversos trabalhos a efectuar no interior da colina que nos servia de quartel havia a recolha do lixo, e fazendo eu parte do grupo contemplado, dirigimo-nos para o lugar onde começava a “tournée, isto é, para o refeitório enquanto o condutor ia buscar o veiculo para o efeito. Chegados ai, sentamo-nos o que era normal, enquanto o “carro do lixo” não chegava.Estava escrito que naquele dia tudo seria diferente, e subitamente passa um homem ostentando 3 galões em cada ombro que com a sua voz assustadora, grita ao Furriel que nos enquadrava: - O nosso Furriel, ponha-me esses homens a trabalhar. – O meu capitão, não podemos trabalhar, ainda não veio o carro. – Não quero saber, mas dai cá os vossos números, e tomai nota: vos sereis os primeiros a ir p’ro Canacassala.Seria injusto falar de Nambuangongo sem citar todos os lugares tristemente celebres, (quem disse cus de judas?) que num raio de 50 quilómetros o circundavam, mas o que lhe dava o “charme”, a magia, era em minha opinião o Canacassala. No seio de um verde intenso, o CANA, como lhe chamávamos por “afecto” era algo de impenetrável, de indomável, sagrado, tabu; o CANA, merecia todos os superlativos. Ei-lo sobranceiro, orgulhoso , altivo, como a dizer: Vos os audazes, venham dai, se são capazes.“Et pour cause”, as gentes daquelas bandas, recusavam-nos o direito de passagem.Foi então decidido passar à força. Nos passaremos; “decretou” o Batalhão que nos precedeu. Aconteceu porem que, ou porque a força estava do outro lado, ou que não fosse o momento azado para zaragatas, foi abandonada a contenda.Voltou à carga o Exercito Português, aquando da nossa presença. Foi empreendida a grande caminhada, na companhia da Junta Autónoma de Estradas de Angola, porque o objectivo era desobstruir uma artéria nunca dantes “navegada”, isto é, abandonada à natureza desde o inicio das hostilidades.O acaso que fez com que a certa altura eu andasse no grupo da frente, quis também que mais tarde, fosse enviado para o acampamento que acabava de ser improvisado e no interior do qual nos passaríamos a noite. Creio que a minha “missão” era guardar o material do meu pelotão, uma espécie de plantão. Antes, tive a ocasião de constatar que parte do meu grupo entre outros tinha enveredado por uma picada perpendicular aquela que seguíamos. Depois de “instalado” nas minhas novas funções, notei a presença de um canhão apontado na direcção de um ponto cardeal entre Norte e Leste. Talvez estivéssemos perto do centro nevrálgico do que se podia considerar o Quartel General da guerrilha, porque depois de enviada a primeira salva de obuses apareceu no céu do Canacassala um pequeno avião. Começa então um dialogo de surdos entre Capitão artilheiro e o piloto do avião: O pássaro voe mais baixo, pássaro... ... Nos temos que fazer isto hoje, pássaro... ... Que o piloto temesse ser atingido por um obus ou que outra coisa proveniente do solo, lhe quebrasse uma asa, decidiu não voar mais baixo.Pouco depois o “pássaro” bateu as asas e foi-se embora. Ultimo lamento do Capitão artilheiro: O pássaro, eu vi-o fazer sinal de asas, pássaro . O “pássaro” não mais voltou.Finalmente... ... passamos. No ultimo dia, dormimos em “casa” dos nossos camaradas da Beira-Baixa. Os mais corajosos foram à caça ao javali. Não participei na caçada, mas participei no jantar preparado com a carne proveniente da batida na Secção Auto. Obrigado ao nosso amigo Cascais por nos ter convidado.António Sequeira Leitão.

leitao-1002.JPGleitao-1000.JPGleitao-1001.JPGleitao-1003.JPGO- Via Lactea.JPGVia Lactea.jpgVia Lactea-1.jpgVia Lactea-2.jpg


publicado por bcac3869 às 17:30
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